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Obras da Via Metropolitana comprometem estruturas do Ilè Asé Opò Erinlé

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Iniciadas em 2015, as obras da Via Metropolitana continuam causando problemas e prejuízos, ao Ilè Asé Opò Erinlé, terreiro de Candomblé localizado em Quingoma, cuja área margeia a via.

O terreiro foi um dos principais afetados, diretamente, pois sofreu perdas irreparáveis, de ordem espiritual, para o povo de Candomblé. Teve casas de santo afetadas e destruídas, com a trepidação causada pelas máquinas pesadas; assoreamento do rio, cuja nascente era na propriedade; rompimento de uma lagoa artificial, onde criava-se peixes, tudo fruto de uma obra executada, sem a devida preservação do seu entorno.

A redação do Lauro Jornal conversou com o Babalorisá Manoel Veiga de Erinlé, que nos conta sobre os prejuízos, as reparações e os problemas que continuam sem solução.

Lauro Jornal: Quando as obras começaram a afetar o terreiro?

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Manoel Veiga: Desde que começaram a desmatar, logo no princípio, quando foi feita a derrubada de muitas árvores, algumas seculares, o rio começou ser assoreado e a agressão, pelo barulho de máquinas, trepidação, um monte de coisa desse tipo.

LJ: Além desse barulho, disso tudo, as estruturas do terreiro também foram afetadas, paredes?

MV: Quando começaram a passar o trator, uma máquina que ajusta a terra, causaram muitas rachaduras, inclusive no nosso barracão. Na casa de santo, perdemos o Ibá* do Oxalá de minha avó, que tinha mais de cem anos. A gente perdeu porque o pepelê (altar do orixá) caiu, foi assim, uma devastação! O horto, o galinheiro, um monte de coisas foram quebrando e rachando.

*Ibá é o conjunto de louça, utilizada para assentamento dos orixás.

LJ: Então estamos falando não apenas de prejuízos materiais, mas também de prejuízos de ordem espiritual, do culto ao Candomblé, correto?

MV: Sim, sim!

Eu ouvi uma vez, de um engenheiro, na época que eu falei a ele, sobre esse ibá, o seguinte: “o dia de um caminhão com fresado, pra jogar material nesses buracos que estão na pista, sai mais caro do que esse ibá“. E isso, pra mim, foi uma agressão, porquê, além de pertencer à minha avó, e assim, um valor sentimental, ali morava um orixá, de muitos anos e que foi desrespeitado.

LJ: Algum contato, de algum responsável, foi feito no intuito de sanar os problemas causados?

MV: A princípio, o primeiro contato que eu tive com a Bahia Norte, foi através de Leana Mattei, que era responsável pela parte social. Mas foram feitos alguns acordos e nada se adiantou.

Depois, foi marcada uma reunião, num dia de sexta-feira às quatorze horas, com três funcionários: Loran, da Bahia Norte; Ângela, que era assistente social de uma empresa contratada e Samuel, responsável pelo meio ambiente.

Só que essa reunião, que seria com essas três pessoas e eu, eu multipliquei e nós tínhamos, aproximadamente, aqui no terreiro, entre setenta a oitenta pessoas, muitas das quais, influentes. Estiveram presentes, a Profª. Jacilene Nascimento e a dra. Vilma Reis que, naturalmente, tomou conta da reunião no sentido de conduzí-la. Foram feitas algumas propostas, mas não se conseguiu fechar nada, nada evoluiu.

Tivemos uma visita de uma funcionária da Casa Civil, Adriana, que fez uma visitação para ver a situação dos estragos. Logo em seguida, recebemos outra visita, com o Dr. Eraci, quando foi marcada uma nova reunião, desta vez na Casa Civil, junto com Leana Mattei, alguns funcionários da Bahia Norte, eu, a Profª. Jacilene e a equipe de assessoria religiosa. Nesta reunião, foi feito um TAC, um acordo e nada foi cumprido. Dr. Eraci deu continuidade, apertando a coisa de alguma maneira. Aí limparam o rio, mas não limparam direito; endireitaram uma pequena represa; ajeitaram o lago que fissurou, por conta do atrito das máquinas e a gente continuou, com dificuldade.

Tivemos outras reuniões, com Dr. Eraci, na Casa Civil, buscando solução, quando alguma coisa andou e parou, novamente. Fomos à Casa Civil, mas, desta vez, sem sucesso. Tempo depois, o processo foi passado para dois funcionários, André e Júlio, que marcaram mais algumas reuniões, inclusive no terreiro. Os mesmos fizeram um acompanhamento e, neste interim, conseguimos que concluíssem o horto, de forma precária, ficando pendentes, um livro sobre a história do terreiro e o galinheiro, onde fizeram alguns ajustes, aumentaram as paredes, mas que está se abrindo em rachaduras, sem que nada consiga ser resolvido pela Bahia Norte, sempre com uma desculpa.

No final das contas, nós, do terreiro, é que estamos sempre mentindo!

Eu acredito que tudo isso seja tratado desta forma, por sermos de religião de matriz africana e estarmos instalados numa região quilombola. Então, por conta disso, a desvalorização é imensa. Se estivéssemos em local central e não se tratasse um terreiro de Candomblé, a coisa seria tratada de forma mais séria.

LJ: Ou seja: além dos problemas causados, de infraestrutura, no geral, como as casas de santo, que sofreram rachaduras e algumas vieram a cair, existe também um descaso, sentido pelo terreiro, pelo fato de ser religião de matriz africana e estar em região quilombola e de moradores afrodescendentes?

MV: Sim! Eu inclusive fiz um comentário, com um funcionário, quando lhe disse:

“como vou deixar pessoas trabalhando dentro do terreiro, vocês nesse descaso, se tenho medo de um acidente?”

Perdemos, inclusive, acompanhamentos que fazíamos, através de um grupo de capoeira, com psicopedagoga e historiadora, pois tivemos que interromper, por não termos como garantir a segurança das pessoas, no barracão.

Na época, meus netos escaparam de serem esmagados, pois a parede do barracão caiu, logo após se levantarem, pela manhã.

Nada disso foi tratado, com relevância, pela Bahia Norte!

LJ: Quais foram as providências tomadas pela empresa responsável?

MV: Bom, depois do TAC, da reunião citada anteriormente, na Casa Civil, com o Dr. Eraci, foi assinado um termo, com prazo, aonde entrava o revestimento do lago e eles estavam numa dificuldade enorme, por conta de valores, assim eles alegavam, daí eu sugeri que viesse com um grupo, estudar a situação e, através da Casa Civil, veio o pessoal da Bahia Pesca que fez uma outra avaliação, para tentar ver como dar condição da Bahia Norte fazer o que era necessário.

Foi feito, o trator quebrou, vazou lago e eles deram por concluído. O horto também foi feito, tudo muito assim, superficialmente.

Mas, existem coisas que eu preciso que eles concluam, porque o prazo já extrapolou. Foi estipulado novo prazo, que já extrapolou, também. O livro, há três anos, deveria ter sido entregue, na festa do caboclo, em dezembro. Então são três anos de atraso do livro.

Quanto à parte da pastagem do galinheiro, eles alegaram que não tinha mais dinheiro, pois teria que ser todo de tela. Daí eu fiz o acordo de suspender as paredes, pois tinha bloco, no terreiro, para isso e eles não precisavam fazer a parte da pastagem, o que eu resolveria.

Então surgiu a conversa do ¹”Compliance” (um termo que eles usam e que eu não sei o significado) que foi usado como argumento para a não realização dos reparos. Assim, tudo foi ficando atrasado: o galinheiro e o livro que me prometeram, por exemplo. Enfim, nada foi cumprido e agora está tudo rachando e o portão do fundo caindo. Nada do acordo foi concluído, nada foi cumprido.

LJ: Ou seja, o senhor falou que existia um lago no terreiro e esse lago, por conta das obras, foi afetado e esvaziado. Nenhuma providência foi tomada com relação a esse lago.

MV: Não! Eles não tomaram a providência que ficou acertada pela Bahia Pesca, que era colocar um lonado próprio, cobrindo o fundo do lago, porque estava vazando a água e isso não foi feito e sim,  um arranjo, como tudo por aqui.

Porque, na realidade, funciona mais ou menos assim: eles estão falando a verdade e nós, da comunidade quilombola, estamos mentindo!

Existem outros problemas, causados pela instalação da Bahia Norte, no território, a exemplo de nenhum morador ter sido aproveitado, como funcionário. Nenhum presta!

Não foi feito nenhum melhoramento, nem mesma a escola, que consta no TAC.

LJ: Conclui-se, então, que só foi prejuízo para a comunidade, a construção desta Via Metropolitana, dentro do território quilombola.

MV: Sim, sim. Só prejuízo!

Hoje temos que conviver com os constantes pegas de carros e motos, na Via Metropolitana, além de outros problemas enfrentados. Nestes anos que estou aqui, nunca convivemos com coisas do tipo.

Isso vem afetando demais a minha saúde, pois esse constante vai e vem, essas discussões, têm me transtornado. Os funcionários da Casa Civil me dão muita atenção, a exemplo de André e Júlio, que sempre entram em contato, me informam do andamento, mas sempre com uma desculpa. Agora foi a pandemia! Antes, o engenheiro vinha, dizia uma coisa, depois outro, com outra história, mas sem nada ser concluído.

LJ: E hoje, qual a situação, quase cinco anos após o início das obras?

MV: Eu deveria dar risada! Eles concluíram o lago, da forma que eles acharam que deviam. Não foi revestido com a lona devida. O galinheiro, suspenderam paredes, mas simplesmente a própria estrutura, dito por um engenheiro deles – mas é mentira minha – que hoje não está mais, que quanto àquelas rachaduras, precisava-se ter cautela e não concluíram o galinheiro. O horto, fizeram, está lá, as telas já estão lascando, porque o próprio terreno está cedendo.

O livro, até hoje eu espero, nem livro, nem revistinha, nem nada.

Quilombo? Existe quilombo? Quingoma existe para a Bahia Norte? Não sei!

Mais uma vez digo:

“um local onde moram pessoas pobres, negras, desfavorecidas e onde nada foi feito, até hoje, em relação ao quilombo, a não ser passar a via. E não foi feito nenhum melhoramento para o quilombo. Muito menos a conclusão dos reparos do terreiro.”

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Entrevista cedida ao Lauro Jornal, em 07/11/2020

¹Comply, em inglês, significa “agir em sintonia com as regras”, o que já explica um pouquinho do termo. Compliance, em termos didáticos, significa estar absolutamente em linha com normas, controles internos e externos, além de todas as políticas e diretrizes estabelecidas para o seu negócio.

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