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Editorial

A fábula dos porcos assados

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Vasculhando meus arquivos, em busca de um certo material, me deparei com este texto, que achei ser a cara do nosso país, não apenas em momento de “pandemia”, motivo pelo qual o coloco neste editorial.

É impressionante a analogia sugerida, comparada com os nossos momentos políticos, nossos gestores e governantes, que buscam soluções extremamente complicadas e onde menos existe, para soluções de problemas que todos sabem onde estão, basta querer executar.

Aproveito para expor uma interrogação, que permeia minha mente, inquieta por respostas:

  • é tão difícil para “O SISTEMA”, deferir os pedidos de “AUXÍLIO EMERGENCIAL”, para os menos favorecidos. Mas não o foi, para os militares das Forças Armadas, ao ponto de “eles terem que devolver o que já receberam.” Por que será?

Vamos à fábula, enquanto a resposta não chega!

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Catho

Certa vez, aconteceu um incêndio num bosque, onde havia alguns porcos, que foram assados pelo fogo.

Os homens, acostumados a comer carne crua, experimentaram e acharam deliciosa a carne assada.

A partir daí, toda vez que queriam comer porco assado, incendiavam um bosque…

. . .

Mas o que quero contar é o que aconteceu quando tentaram mudar o SISTEMA para implantar um novo…

Fazia tempo que as coisas não iam lá muito bem:

  • às vezes, os animais ficavam queimados demais ou parcialmente crus;

  • o processo preocupava muito a todos, porque, se o SISTEMA falhava, as perdas ocasionadas eram muito grandes;

  • milhões eram os que se alimentavam de carne assada e também milhões os que se ocupavam com a tarefa de assá-los.

Portanto, o SISTEMA simplesmente não podia falhar!

Mas, curiosamente, quanto mais crescia a escala do processo, mais parecia falhar e maiores eram as perdas causadas.

Em razão das inúmeras deficiências, aumentavam as queixas. Já era um clamor geral a necessidade de reformar profundamente o SISTEMA.

Congressos, seminários e conferências passaram a ser realizados, anualmente, para buscar uma solução. Mas parece que não acertavam o melhoramento do mecanismo. Assim, no ano seguinte, repetiam-se os congressos, seminários e conferências.

As causas do fracasso do SISTEMA, segundo os especialistas, eram atribuídas à indisciplina dos porcos, que não permaneciam onde deveriam; ou à inconstante natureza do fogo, tão difícil de controlar; ou ainda às árvores, excessivamente verdes; ou à umidade da terra; ou ao serviço de informações meteorológicas, que não acertava o lugar, o momento e a quantidade das chuvas.

As causas eram, como se vê, difíceis de determinar – na verdade, o sistema para assar porcos era muito complexo. Fora montada uma grande estrutura:

  • maquinário diversificado;

  • indivíduos dedicados, exclusivamente, a acender o fogo;

  • incendiadores que eram, também, especializados (incediadores da Zona Norte, da Zona Oeste, etc, incendiadores noturnos e diurnos – com especialização matutina e vespertina – incendiador de verão, de inverno etc);

  • havia especialista também em ventos – os “anemotécnicos”.

Havia um diretor geral de assamento e alimentação assada; um diretor de técnicas ígneas (com seu Conselho Geral de Assessores); um administrador geral de reflorestamento; uma comissão de treinamento profissional em “Porcologia”, um instituto superior de cultura e técnicas alimentícias (ISCUTA); e o bureau orientador de reforma “igneooperativas”.

Havia sido projetada e encontrava-se em plena atividade, a formação de bosques e selvas, de acordo com as mais recentes técnicas de implantação – utilizando-se regiões de baixa umidade e onde os ventos não soprariam mais que três horas seguidas.

Eram milhões de pessoas trabalhando, na preparação dos bosques, que logo seriam incendiados. Havia especialistas estrangeiros estudando a importação das melhores árvores e sementes, o fogo mais potente etc. Havia grandes instalações para manter os porcos antes do incêndio, além de mecanismos para deixá-los sair apenas no momento oportuno.

Foram formados professores, especializados na construção dessas instalações. Pesquisadores trabalhavam para as universidades, para que os professores fossem especializados, na construção das instalações para porcos. Fundações apoiavam os pesquisadores, que trabalhavam para as universidades, que preparavam os professores, especializados na construção das instalações para porcos, etc.

As soluções que os congressos sugeriam eram, por exemplo, aplicar triangularmente o fogo, depois de atingida determinada velocidade do vento, soltar os porcos 15 minutos antes que o incêndio médio da floresta atingisse 47 graus e posicionar ventiladores gigantes, em direção oposta à do vento, de forma a direcionar o fogo.

Não é preciso dizer que os poucos especialistas estavam de acordo entre si e que cada um embasava suas ideias em dados e pesquisas específicos.

Um dia, um incendiador categoria AB/SODM-VCH (ou seja, um Acendedor de Bosques especializado em Sudoeste Diurno, Matutino, com bacharelado em Verão Chuvoso) chamado João Bom-Senso resolveu dizer que o problema era muito fácil de ser resolvido:

  • bastava, primeiramente, matar o porco escolhido, limpando e cortando adequadamente o animal, colocando-o então numa armação metálica sobre brasas, até que o efeito do calor – e não as chamas – assasse a carne.

Tendo sido informado sobre as ideias do funcionário, o diretor geral de “assamento” mandou chamá-lo ao seu gabinete e, depois de ouvi-lo, pacientemente, disse-lhe:

“Tudo o que o senhor disse está muito bem, mas não funciona na prática.

O que o senhor faria, por exemplo, com os “anemotécnicos”, caso viéssemos a aplicar a sua teoria? Onde seria empregado todo o conhecimento dos acendedores de diversas especialidades?”.

“Não sei”, disse João.

“E os especialistas em sementes? Em árvores importadas? E os desenhistas de instalações para porcos, com suas máquinas purificadores automáticas de ar?”.

“Não sei”.

“E os “anemotécnicos” que levaram anos especializando-se no exterior e cuja formação custou tanto dinheiro ao país? Vou mandá-los limpar porquinhos? E os conferencistas e estudiosos, que ano após ano têm trabalhado no Programa de Reforma e Melhoramentos? Que faço com eles, se a sua solução resolver tudo? Heim?”.

“Não sei”, repetiu João, encabulado.

“O senhor percebe, agora, que a sua ideia não vem ao encontro daquilo de que necessitamos? O senhor não vê que se tudo fosse tão simples, nossos especialistas já teriam encontrado a solução há muito tempo atrás? O senhor, com certeza, compreende que eu não posso simplesmente convocar os “anemotécnicos” e dizer-lhes que tudo se resume a utilizar brasinhas, sem chamas! O que o senhor espera que eu faça com os quilômetros e quilômetros de bosques já preparados, cujas árvores não dão frutos e nem têm folhas para dar sombra? Vamos, diga-me?”.

“Não sei, não, senhor”.

“Diga-me, nossos três engenheiros em “Porcopirotecnia”, o senhor não considera que sejam personalidades científicas do mais extraordinário valor?”.

“Sim, parece que sim”.

“Pois então. O simples fato de possuirmos valiosos engenheiros em “Porcopirotecnia” indica que nosso sistema é muito bom. O que eu faria com indivíduos tão importantes para o país?”

“Não sei”.

“Viu? O senhor tem que trazer soluções para certos problemas específicos – por exemplo, como melhorar as “anemotécnicas” atualmente utilizadas, como obter mais rapidamente acendedores de Oeste (nossa maior carência) ou como construir instalações para porcos com mais de sete andares. Temos que melhorar o sistema, e não transformá-lo radicalmente, o senhor, entende? Ao senhor, falta-lhe sensatez!”.

“Realmente, eu estou perplexo!”, respondeu João.

“Bem, agora que o senhor conhece as dimensões do problema, não saia dizendo por aí que pode resolver tudo. O problema é bem mais sério e complexo do que o senhor imagina.

Agora, entre nós, devo recomendar-lhe que não insista nessa sua ideia – isso poderia trazer problemas para o senhor, no seu cargo. Não por mim, o senhor entende?

Eu falo isso para o seu próprio bem, porque eu o compreendo, entendo perfeitamente o seu posicionamento, mas o senhor sabe que pode encontrar outro superior menos compreensivo, não é mesmo?”.

João Bom-Senso, coitado, não falou mais um ‘a’…

Sem despedir-se, meio atordoado, meio assustado com a sua sensação de estar caminhando de cabeça para baixo, saiu de fininho e ninguém nunca mais o viu…

“Por isso é que até hoje se diz, que quando há reuniões de Reforma e Melhoramentos nas quais não se admite a possibilidade de mudar o Sistema, falta o Bom-Senso…!


(Autor Desconhecido)
Imagem: Freepik

Catho
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